O software alemão
Postado por Andher Ribeiro 16/07/14

Como um programa de computador contribuiu para a vitória da seleção germânica na Copa do Mundo

No início de 2000, Dietmar Hopp, o milionário sócio da SAP, uma das maiores empresas de software do mundo, assumiu como mecenas do pequeno TSG 1899 Hoffenheim, clube da quinta divisão alemã. Quando adolescente, Hopp jogara nas divisões de base do time. Por trás da história da ascensão do clube à primeira divisão está, em parte, também a história do tetracampeonato alemão no Maracanã. Uma história que passa por um programa de computador que nasceu ali: Match Insights.

Já faz alguns anos que nos acostumamos a ouvir estatísticas durante os jogos. Quantos passes certos e quantos errados, chutes a gol, espaço percorrido por cada atleta, tempo de posse da bola. Um dos problemas que vêm perturbando técnicos e jornalistas especializados é como transformar estes números em informações que possam de fato contribuir para o aperfeiçoamento do jogo. A turma mais velha, tanto na crônica quanto entre os profissionais do esporte, costuma fazer pouco das estatísticas. Futebol mesmo, sugerem, quem entende são aqueles com a manha, quem sabe observar com seus anos de prática. O Match Insights nasceu para dar sentido aos números.

O campo de treino do TSG é um parque tecnológico. Em todos os pontos do gramado há câmeras e sensores. Quando vão ao campo, os jogadores carregam sensores também em suas meias. Nenhum movimento passa sem análise. E nenhuma tecnologia deixa de ser testada. Com um Google Glass, o técnico analisa em tempo real dados sobre como se movem seus homens. Com um iPad, é capaz de explicar o que deseja deles.

Evidentemente, em um jogo oficial não há sensores no gramado. Mas, ainda que com menos detalhes, imagens em vídeo bastam para que o Match Insight faça a coleta de números o tempo todo.

Tática importa, treino idem. Futebol pode parecer um jogo romântico no qual a habilidade individual faz o truque. Na prática, é um jogo de conquista de território. As equipes avançam contra o terreno adversário com o objetivo de se aproximar do gol. Os métodos são muitos: passes longos ou curtos toques de bola, dribles. O olho do técnico experiente percebe este avanço de forma mais sofisticada que o do torcedor comum. Capta erros, intui movimentos. O software pode ir onde o olho já não alcança.

Com o Match Insights, analisando o movimento dos jogadores alemães em campo, a equipe técnica foi capaz de perceber micromovimentos que poderiam ser aperfeiçoados. Os melhores cronistas logo observaram: os alemães juntaram o estilo de toque de bola do “tiki-taka” espanhol com sua eficiência germânica. Por trás está o software. Entre a posse de bola e o passe, o tempo foi reduzido de 3,4 para 1,1 segundos. Não há mágica.

Não é só para aperfeiçoar seu próprio time que serve o programa. Cada equipe que enfrentou os alemães foi cuidadosamente analisada para identificar, sempre, os espaços desguarnecidos. Enquanto os jogadores brasileiros ouviam discursos motivacionais, os alemães viam na tela um mapa com os buracos deixados pelo oponente.

Os europeus estão mergulhando fundo e apenas começam a descobrir o que softwares podem revelar a respeito de futebol. Já há alguns livros sobre o tema no mercado. O melhor se chama “Os Números do Jogo” (Editora Paralela) e leva as assinaturas de Chris Anderson, um ex-goleiro, e David Sally, um economista. Um livro só sobre futebol e números.

Para Anderson e Sally, futebol é 50% acaso e 50% aperfeiçoamento tático. Enquanto isso, no Brasil, nos resta a emoção do hino a capella.
 

Fonte: Jornal O Globo - http://goo.gl/EnzHzZ

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